Post perdido

 

Andei faxinando o pc e achei um causo sobre o começo do ano.

 

O ano começou cansado, logo não via a hora de entrar em férias. Uma das vantagens em ter pais com casa na praia é que sempre temos um lugar para cair no litoral, seja em que época do ano for. A desvantagem é que se esta data coincidir com feriados religiosos, nacionais ou reveillon pode esquecer o sossego.  Pode tratar de treinar o desapego aos calmos momentos de meditação silenciosa na família lunar e tratar de se alistar na luta sangrenta de quem vai lavar a louça do batalhão na família poética.

Estávamos estourados e precisando descansar. Planejamos um dolce far niente na praia poética, recheado de livros apetitosos que passamos o ano garimpando, sonecas pós almoço e caminhadas vespertinas para a consciência não pesar com os sorvetes e cafés da tarde. Pasmem, conseguimos fazer isto mas não sem ter que declinar passeios ma-ra-vi-lho-sos à prainha-não-sei-de-onde, ao calçadão do point da galera descolada e demais programas agitados. O povo não consegue entender que apesar de nossos trinta e poucos gostamos e queremos sossego vez em quando. Somos bichinhos quietos, o Poeta e eu.

A familhagem poética não é muito grande que exija um acampamento de campanha, mas eles têm um comportamento sui generis que após vários dias fica muito escancarado, evidente e que sem uma boa dose de humor pode comprometer as férias. Tá, tá...esta Lua aqui é metódica e tem fases, logo meu comportamento certamente é destoante e se faz notar. Aceito que passo muito tempo na fase minguante, isto é auto crítica.

O comportamento

          Acho muito engraçado as pessoas que conversam sem escutar o que o interlocutor está dizendo. É uma repetição de frases que me levam à loucura. Uma conversa de meia hora nunca versa sobre nada que retenha a atenção nem sobre nada que varie mais que 4 temas. Os assuntos são recorrentes, as soluções encontradas numa discussão são esquecidas como que num acordar de transe hipnótico, redescobertas todas novamente e tem sempre um cidadão que chega e pergunta algo do nada com outro que resolve explicar tudo de novo. Tá confuso? Hum, no começo também fiquei mas me lembrei que estava em férias e passei a me divertir, mesmo porque eles não agem assim apenas nas férias...é a rotina familiar. Ouvir sem julgar como é que pessoas com este perfil vivem e ver o quanto pode ser viertido ver alguém contar uma história com riqueza de detalhes e rapapés .Agora multiplica o causo por 5 repetições, divide por 30 minutos de prosa e soma (com um pouco de sorte) mais um assunto; voilá...o resultado é gente animada e feliz resolvendo problemas no litoral.

A louça

          Louça em praia é o ó. No seio familiar lunar os problemas são outros (que conto noutro conto) e a louça nunca é problema. Ela é suja, lavada depois da soneca e deixada para secar até a hora do jantar. Pra mim tá 10! Sempre tem um descansado no rodízio para fazer o serviço. No núcleo poético a coisa é alucinante. A louça tem que ser lavada quase que simultanea e totalmente com o povo usando e por duas únicas pessoas. Poeta Mãe e Poeta Vó. Juro que eu e a Concunhada tentamos ajudar mas a coisa é tão furiosa que as duas Poetas praticamente se engalfinham pela bucha e detergente antes mesmo da sobremesa ser servida. Poeta Vó com 90 anos levanta antes de todos para começar a lavar e Poeta mãe vai atrás com o mesmo discurso do me dá que eu vou lavar, não mãe, sente e coma uma sobremesa, olhe os outros que ainda nem terminaram. Quando finalmente a Vó senta, adivinha? Poeta mãe em vez de sentar com todos fica lavando a louça freneticamente. O enloquecedor é que isto acontece assim mesmo em cada refeição. Agora veja a situação da Lua aqui e demais agregadas do sexo feminino...porque apesar das anciãs sempre dizerem que elas limpam a cozinha, experimenta ficar fora da sentinela para ver...sua fama de preguiçosa sobe a serra antes do feriado acabar e mesmo que isto não aconteça, vai arriscar? Nesta luta de foice sobram atividades como guardar as sobras dos alimentos (o que é um porre uma vez que não é nossa casa e tudo temos que perguntar como quer que guarde), varrer o chão e passar pano. Estas duas últimas atividades são muito rápidas de fazer...aí ficamos Lua e Concunhada tentando roubar o pano da Poeta Vó ou a bucha da Poeta mãe. Depois de uns dias mudei de estratégia, logo que a batalha começava eu anunciava que nesta luta eu não tinha chance porque era Lua e não Poeta, que assim aque elas cansassem eu daria uma mãozinha mas que como não tinha chance nem entraria na disputa. Resultado foi que sobraram umas loucinhas para mim e para a concunhada para que nossa fama de noras aproveitadoras morresse na praia.


Em tempo...Poeta Mãe comprou uma lava-louças e teremos aventuras diferentes nas próximas férias. Aguardem!

Escrito por Lua às 11h15 PM
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